Uma mãe me perguntou outro dia, no meio de uma consulta que nem era sobre o filho dela: "como é que eu ia saber que precisava trazer ele antes?" A resposta curta é que ela não tinha como saber sozinha. É para isso que existe a avaliação.
Depois de 26 anos vendo criança em consultório e em pronto-socorro, aprendi que a maioria das famílias só procura um neurologista infantil depois de meses de dúvida, às vezes anos. Não por displicência. Por não saber se aquilo que estão vendo é motivo de preocupação ou coisa de criança mesmo.
O critério que uso para decidir
Não existe uma lista fechada de sintomas que garante diagnóstico. Existe, sim, um padrão que costuma indicar que vale a pena avaliar: algo que persiste, que atrapalha o dia a dia da criança ou da família, ou que representa uma mudança em relação ao que ela já fazia antes.
Trago abaixo os sinais mais comuns que motivam a primeira consulta no meu consultório, divididos por área.
Desenvolvimento
- Criança que não anda até os 18 meses, ou não fala nenhuma palavra com sentido nessa idade
- Perda de uma habilidade que já tinha sido adquirida, como parar de falar palavras que já dizia
- Dificuldade importante de interação com outras crianças, comparada aos colegas da mesma idade
- Atraso escolar persistente, mesmo com reforço e acompanhamento pedagógico
Sintomas neurológicos
- Episódios de "desligamento", em que a criança para, olha fixo e não responde por alguns segundos
- Movimentos involuntários, tremores ou abalos, principalmente se repetidos
- Dor de cabeça frequente, sobretudo se acorda a criança à noite ou vem com vômito
- Perda de força ou de equilíbrio, de forma súbita ou progressiva
Comportamento
- Agitação e desatenção muito acima do esperado para a idade, presentes em mais de um ambiente
- Irritabilidade intensa e desproporcional, difícil de acalmar
- Regressão de comportamento após algum evento, como início na escola ou nascimento de um irmão
Nenhum desses sinais, isoladamente, fecha diagnóstico. Servem para uma coisa só: dizer que vale a pena marcar a avaliação.
O que não é motivo de alarme (na maioria das vezes)
Vale também tranquilizar. Choro forte na fase dos dois anos, teimosia, uma criança mais quieta que a irmã mais velha era na mesma idade: isso é variação normal. Tento sempre diferenciar, na consulta, o que é traço de personalidade do que é sinal clínico. Confundir as duas coisas gera ansiedade desnecessária na família, e isso também não ajuda a criança.
O papel de quem convive com a criança
Pais, professores e o pediatra que acompanha a criança desde pequena costumam perceber a mudança antes de qualquer exame. Levo muito a sério quando uma mãe diz "não sei explicar, mas ele mudou". Essa observação tem valor clínico real.
Se você trouxe seu filho até aqui buscando essa resposta, já deu o primeiro passo certo. O segundo é simples: marque a avaliação. Ela não custa nada além do tempo da consulta, e o retorno, quando há algo a ser investigado, é sempre maior quanto mais cedo se começa.
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Dr. Flawber Antônio Cruz
Médico, Neurologia Infantil, CRM-PB 5122
26 anos de medicina dedicados ao cuidado neurológico de crianças e adolescentes. Conheça a trajetória
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica. Em caso de dúvidas sobre a saúde neurológica do seu filho, procure um neurologista infantil.